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Beltrano - Edição 778

Amor e hemorroida em tempos de pandemia

Extra! Extra!! Como se não bastasse ver a idade chegando, ainda aparecem professores querendo furar a fila da vacina! É fogo ficar velho! Ainda bem que na cama não tenho limite, ainda esta noite caí três vezes! O bom de passar dos 60 anos é que a gente não precisa de drogas ou bebidas para ficar tonto; basta levantar rápido! Rá, rá, rá, rá...
Na verdade, na verdade mesmo, envelhecer é uma merda. Quando você acha que já sabe tudo, aí começa a esquecer! Pra se ter uma ideia, o ano de 2020 foi o primeiro ano que eu não viajei para Miami por causa da Covid. Normalmente, não ia por causa de dinheiro! Sei dizer que envelhecer é Froyd. Ainda tem gente que diz que é a melhor idade, até porque, quando chegamos nela, não precisamos ficar sarados; se ficarmos curados, já estamos no lucro!
O Antonho do Bidunga é que me dizia: “Como é bom passar dos 60 e ainda se sentir desejado”. Depois completava: “Obrigado, pernilongos”! Já a Judite, uma amiga minha da Cova Funda, acha que suas roupas de sair estão morrendo de saudades dela... Me disse que dia desses colocou uma e ela apertou tanto, mas tanto, que só pode ser saudade! Ela costuma dizer que antigamente seu creme do corpo era Nivia; hoje, chama-se Cataflan gel! Rá, rá, rá, rá...
Mas também não são só coisas ruins, ser idoso também tem suas vantagens, por exemplo: com a idade adquirida, ficamos mais hábeis, conseguimos rir, tossir, espirrar e mijar, tudo ao mesmo tempo! Acho que a pandemia tá me deixando louco: dia desses fiz um escondidinho pra comer, mas quem disse que eu achei! Agora só faço pavê... pavê se eu acho!

Foi o Antônho do Bidunga
Quem me contou esta história
De um sinhozinho da Barra
Que viveu fazendo farra
E ficou sem escapatória.

O pobre do seu Anacleto 
Sempre se via na praça,
Ficava lá num banco, sentado 
Com o seu terninho apertado 
Todo comido de traça. 

Com o semblante carregado, 
Na mulherada fixava o olhar,
Na maioria das vezes calado 
E com os lábios cerrados, 
Punha-se da vida a lamentar. 

Passava horas inteiras 
Sem muito ânimo, levantava 
Ajeitava o paletó puído
E com o semblante doído 
Em passos curtos se mandava. 

Até que um dia o Antônho 
Vencido pela curiosidade 
Aproximou-se do velhinho
E sorrindo com carinho 
Perguntou com humildade: 

“Desculpe-me a intromissão, 
Uma dúvida me apavora
O senhor não tem aonde ir 
O que o senhor faz por aqui 
Todo dia, nesta mesma hora?!

O Anacleto falou para o Antônho:
“Preste muito bem atenção
Que sirva como conselho
Para que nunca olhes no espelho
E fiques com depressão”. 

E com voz cansada e emocionada 
Seu Anacleto deu a resposta sugerida: 
“Com você, vou ser franco
É que há 40 anos neste banco
Conheci o único amor da minha vida”. 

E lacrimejando, completou: 
“Apaixonei-me naquele momento
Quase que o coração eu arranco 
E depois, neste mesmo banco 
Me acovardei e não a pedi em casamento”. 

O Antônho tentou adivinhar 
Enternecido pela dor do velhinho: 
“Já sei, o senhor perdeu a chance
Agora não tem mais o amor ao alcance
E anda com medo de morrer sozinho”. 

E seu Anacleto balançou a cabeça 
Simplesmente começou a soluçar:
“Me vejo agora sem mulher e sem filhos
Estou no fim do meu trilho
E sem ninguém para me amar”.

O Antônho então disse pra ele:
“Foi Deus que criou o casamento
Embora pareça inconveniente
Ter unido seres tão diferentes
Está no amor o entendimento”.

“Tá na Bíblia, ouvi o padre na missa
Como Adão, vivia com seus caprichos
Não basta apenas puxar pela memória
Precisamos conhecer toda a história
Quando Adão só dava nomes aos bichos.”

“No paraíso tinha machos e fêmeas
Tinha tigre, porco, tatu, macaco e leão
É possível que Adão tenha então reparado
Que todo macho tinha uma fêmea ao lado
E inspirado, acabou ficando com tesão.”

“Então, Deus, que a tudo espiava
Deu ouvido ao seu segundo coração:
‘Vou te fazer uma companheira
Da costela, farei uma joia de primeira
Pra acabar com essa tua solidão’.”

“Para que não matasse bem-te-vi a soco
Deus pôs em ação aquilo que pretendia
Retirou uma costela, pondo carne no lugar
Fez a mulher e nem esperou o coitado acordar
Deu logo por encerrada a primeira cirurgia.”

“Deus trouxe Eva e a apresentou a Adão
Assim que ele acordou daquele sono pesado
Adão, feliz, achou tudo um colosso:
‘Que coisa linda é o osso do meu osso
E ver o corte da minha cirurgia cicatrizado’.”

“E foi assim que se deu o primeiro casamento
Mas até hoje rola um papo machista e corriqueiro
A partir dali, o homem ficou mais ocupado
Deixou pra trás os bichos que tinha catalogado
Se achando importante porque foi feito primeiro.”

“Há homens que até hoje apregoam por aí
Que fomos o primeiro, pra Eva não dar palpite
Elas se irritam e afirmam, de arma em punho
Que não existe obra prima sem rascunho
Contestada apenas pelo advento da celulite.”

O Antônho diz que isso é irrelevante
Para o sucesso da vida a dois
Que discorde de Deus quem quiser
O melhor do mundo é a mulher
Mesmo vindo antes ou depois!

Daquele dia em diante, o Anacleto
Eu tenho visto no banco da praça
O Antônho o levou num clube de idoso
Agora ele vive feliz, belo e formoso
Namorando a dona Maria das Graças!

Como por ironia do destino
Seu Anacleto encontrou seu abrigo
Num segundo olhar se apaixonou
A Maria das Graças reencontrou
A mulher que foi seu amor antigo.

Uma coisa ninguém me disse
Nem explicou uma parada
Não sei se a dona Maria 
Vive hoje em bigamia
Se é solteira, viúva ou casada! 



Publicado em 11/02/2021 - por Beltrano

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