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Um novo espetáculo, 33 anos depois

27 Abril 2017 09:36:42

Teatro do Biriba esteve em PH em 1984. As peças mudaram; o charme da comédia da vida cotidiana segue imune ao poder transformador do tempo

Os créditos destas são de Maurício Dapper 2.jpeg

Na primeira vez que o Teatro do Biriba passou por Palhoça, muitos de nós ainda éramos crianças. Outros nem eram nascidos! Foi em 1984. Mas tem gente que se lembra bem daquela temporada! Cesar Augusto Passos Rosa, neto do fundador da companhia e intérprete do palhaço Birita, conta que pelo menos três pessoas já conversaram com ele e revelaram que acompanhar novamente as peças teatrais da trupe foi como um mergulho na ternura do passado. O Teatro do Biriba está em cartaz no loteamento Pagani, com sessões diárias (acompanhe no quadro ao lado).
A companhia foi fundada em 1970 em Tangará, no Meio Oeste catarinense, por Geraldo Passos. Cesar conta que o avô já interpretava o personagem Biriba nas peças do então chamado Palace Teatro. Biriba é como eram chamados os “caipiras paulistas”, sempre com seu incomum terno xadrez, sua malinha de couro e seu chapéu de coco. “Meu avô já era artista de outros teatros, ele já vinha migrando de um teatro para outro, conforme era contratado. No último que ele estava, que era do padrasto dele, acabou comprando, porque o padrasto decidiu parar, e meu avô seguiu com a companhia”, relembra o neto.
Só o nome foi trocado. As histórias foram mantidas e boa parte do elenco acompanhou Geraldo na nova empreitada. Na época, a companhia mantinha 80 peças, sendo 70 dramas e apenas 10 comédias. Mas os tempos mudaram. “A gente teve que evoluir conforme o tempo veio passando, adequar o nosso espetáculo. Hoje a gente tem um repertório de 74 peças, e 72 são comédias; e as outras duas são altas comédias, porque não tem a figura do palhaço, que é o carro-chefe, então nem denominamos como drama”, comenta Birita. Ele ensina que o segredo é prestar atenção na reação do público, para ter noção do que dá retorno, do que agrada aos espectadores, e investir nisso. “Os dramas começaram a perder público. A vida já é uma tragédia. Então, na maioria das vezes, a tragédia, quem vive, é o palhaço, aí se torna uma forma engraçada de ver o problema que a gente tem no dia a dia. Porque é comédia, é pastelão, é fictício, mas a gente colhe informações na realidade”, expressa.
Cesar explica que a companhia faz um trabalho comunitário, visitando bairros nas cidades onde se apresenta, e tenta encaixar pontos da região nos espetáculos. Em Palhoça, já surgiram, por exemplo, as peças “Birita, o Leiteiro do Pagani”, “Birita, o Professor da Ponte do Imaruim” e “Birita e o ET do Caminho Novo”. “A gente vai ali, conversa, vê o bar, a lojinha, o ponto mais falado do bairro, e vai botar dentro do espetáculo, para se integrar com a comunidade e para que a plateia se veja no espetáculo. Mas a gente prefere usar isso dentro do nosso contexto, com a nossa interpretação, que desde 1970 é praticamente a mesma, com as mesmas características de espetáculo, os mesmos bordões. É um espetáculo totalmente artesanal, sem tecnologia nenhuma, de uma forma que a plateia hoje não vê mais”, exemplifica. 
Sem o apoio da tecnologia, o jeito é entreter o público com “efeitos técnicos” realizados ao vivo, ou seja, suscetíveis ao erro, o que também faz parte do show. “É quando acontecem as situações mais hilariantes do espetáculo, às vezes, porque a gente acaba tendo que improvisar. Então, a gente procura esse tipo de truques de palco para correr o risco mesmo. Quando acerta, tem o mesmo retorno da plateia, então vale a pena aplicar isso e manter o teatro dessa forma artesanal”, justifica.
Cesar conta que durante as peças os atores interagem muito com a plateia, mas sempre de uma maneira que exalte o espectador, e não para constrangê-lo. “Nunca usamos o bullying como carroça pro sucesso; se eu exaltar a pessoa, estou indo de jato para o sucesso”, filosofa.
A companhia que está em Palhoça é a maior das três que o grupo mantém atualmente, com 28 atores. As outras duas, baseadas em Pomerode (SC) e Arroio do Silva (SC), são menores e dedicam boa parte do tempo a apresentações corporativas em empresas. O repertório também é menor, com cerca de 10 peças. Bem diferente das 78 peças ensaiadas pelo teatro acomodado no Pagani, em que cada dia traz uma nova aventura. Geralmente são duas histórias por espetáculo: uma longa, com cerca de 1h30 de duração, e outra mais curta, de no máximo 10 minutos.
A necessidade de dividir o grupo em três companhias vem do desejo de levar o teatro para o maior número possível de pessoas. Com uma turma só, ficaria complicado: se cada temporada em uma cidade dura dois meses, só conseguiriam cobrir seis cidades por ano. Se mapearem 60 cidades para sediar as apresentações, podem ficar 10 anos para voltar a um determinado lugar. E isso não é bom, nem pra saudade e nem pros negócios. “A temporada está média em Palhoça, por se tratar de uma cidade em que a gente demorou muito tempo para voltar. O pessoal desconhece totalmente o nosso trabalho. Eles confundem, acham que é um circo, e na verdade não é um circo, é um teatro”, reforça o palhaço Birita.
Ele lembra que na última vez em que a companhia esteve em Palhoça, a estrutura onde ocorriam as apresentações se assemelhava a um pavilhão, o que “indicava” melhor a ideia de um teatro. Mas era muito difícil de desmontar, levava muito tempo, e o terreno onde seria instalado tinha que ter certas especificações. Hoje, com uma estrutura de lona que realmente lembra a de um circo, é muito mais fácil de levar o palco e os cenários aos rincões mais escondidos do estado.
Às vésperas de completar 50 anos de atuação, Cesar acredita que a companhia vive um bom momento. A maior dificuldade veio quando Biriba faleceu. Mas a família conseguiu manter o barco no rumo. Talvez justamente por isso, por ser uma “família”. Cesar, mesmo, nasceu no teatro. Ele é filho de Aparecida Passos, a Cidinha, que também atuava nas peças montadas pelo pai, seu Geraldo, paulista de Casa Branca (SP), situada na divisa com Minas Gerais. Seu Geraldo já faleceu; Dona Cidinha também. Seu filho, Geraldo Passos Júnior, herdou o direito de usar o nome de palhaço Biriba. Cesar incorporou o Birita. Quando a turma esteve em Palhoça, há 33 anos, ele era apenas uma criança. “Eu tinha seis anos, mas me lembro daquela temporada. Eu já trabalhava em peças, fazia alguns personagens. Nos dramas tinha muitos personagens infantis e eu acabava trabalhando bastante naquela época. Me lembro que a gente esteve na Ponte do Imaruim, e foi uma temporada boa”, recorda.
O artista revela que nunca teve uma “casa de verdade”. Viveu a vida em hotéis ou nos caminhões do teatro itinerante. Diz que seria uma experiência intensa, morar em uma casa e levar uma “vida normal”. Apesar de gostar da rotina de nômade. “Não posso falar que não gosto, são 39 anos nesta vida, o cara tem que gostar, porque é anormal, foge do contexto da sociedade normal. Vamos dizer que é uma forma anárquica de se viver, no sentido do sistema de vida, não de bagunça, mas de viver paralelo à sociedade, com uma vida completamente diferente. A gente vive em comunidade”, observa. “Vida normal na cidade, eu só vejo em novela”, assegura.
Por falar em televisão, por pouco o palhaço Birita não foi parar no Big Brother Brasil. Chegou a ser sondado e a conversar com a produção do programa! Já imaginaram, depois de 39 anos vivendo “ao sabor do vento”, passar semanas isolado dentro de quatro paredes? Ele tem certeza de que estranharia. Só não estranharia as câmeras. A turma do Teatro do Birita está acostumada ao universo da televisão, até por já ter feito diversas participações em programas como o “Comando Maluco”, em que interagiam com o trapalhão Dedé Santana e com o ícone Beto Carrero. Até hoje, ainda fazem participações na TV. São artistas, e como bons artistas, “vão aonde o povo está”. “Muitas pessoas vivem do teatro. A gente tem que viver para o teatro. Se não nos dedicarmos 100% não há retorno”, receita.

 


Agenda

Teatro do Biriba

Quinta-feira (27), às 20h30 – Birita no Espeto
Sexta-feira (28), às 20h30 - As Duas Órfãs de Paris
Sábado (29), às 20h30 - Goust ou não Goste – Birita do outro lado
Domingo (30), às 15h30 - As Duas Fadas
Domingo (30), às 20h30 – Birita, a Miss Brasil
Segunda (1/05), às 20h30 – Birita no Caso da Língua Engolida

Os ingressos custam R$ 20
Evento especial
Nesta sexta-feira (28), está programado o lançamento do livro O Baú do Biriba – Dramas.


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