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“Manezice” com sotaque do Aririú conquista a Capital

13 Julho 2017 10:22:15

Mônica Prim, criadora da personagem Dona Maricotinha, recebe a medalha Aldírio Simões na Câmra de Florianópolis

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Foto: ARQUIVO PESSOAL
Mônica Prim, a criadora da personagem, “ao natural”

Dona Maricotinha é uma legítima Manezinha da Ilha. Mônica Prim, a palhocense que criou uma das personagens mais folclóricas da cena humorística da Grande Florianópolis, agora também é, “oficialmente”. Em sessão solene da Câmara de Vereadores de Florianópolis realizada na tarde de segunda-feira (10), Mônica recebeu a Medalha Manezinho da Ilha Aldírio Simões.
E é claro que onde Mônica vai, as gargalhadas vão atrás. Dona Maricotinha foi a “escolhida” para receber a homenagem. Chegou atrasada à sessão, porque precisou pegar o ônibus, e ainda estava “entisicada” porque a sandália machucava o “joanete”. “Foi muito legal. Todo mundo muito sério, a sessão solene, ela entra toda atrasada, pegou uma sandália emprestada, que estava apertada, eu dizia eu o joanete estava me matando, e aí deu aquela descontraída. Os vereadores falaram: ‘Olha, quebraste o protocolo total da sessão solene’”, conta Mônica.
Claro que não havia atraso nenhum, a encenação estava combinada, fazia parte do cerimonial. Fugiu do protocolo, pelo bem do humor! Mais ou menos como a história da própria artista. Formada em Administração, a palhocense “enveredou” pelo caminho da dramaturgia quase que por acaso.
Dona Maricotinha nasceu de parto (nada) normal no dia 28 de agosto de 2002. Filha de maestro, cantora de berço, Mônica fazia parte do coral Encantos, do Instituto Estadual de Educação, e se preparava para atuar em um evento chamado “Noite Açoriana”. Pediram que fizesse uma apresentação performática, encarnando uma manezinha. Não tinha roupa adequada. Pegou emprestada com uma senhora que era parente do maestro do coral, chamada (não por acaso) Maricotinha. Foi para a rua e interagiu com o público que ia chegando, zombando com as primeiras armas do arsenal de “manezês” do repertório. Depois, entrou no auditório, interrompeu a apresentação do coral na icônica canção “Rancho de Amor à Ilha” e cantou junto.
O sucesso foi tamanho que as pessoas passaram a pedir que ela interpretasse “aquela manezinha” em festas. O começo foi tímido. Fazia uma festa aqui, outra li; umas cinco apresentações por ano. Hoje, ganha a vida “maricotando”. São 20 apresentações por mês, fora os vídeos. Dona Maricotinha vive o auge da popularidade. “A rádio (tem um programa na Regional FM) deu muita visibilidade e o Facebook, a internet é demais, ela leva a gente para todos os lugares. Eu faço toda segunda-feira de 20 a 30 vídeos, e a gente alimenta a página, porque a vida dela virou uma novela, e o povo brasileiro adora uma novelinha, então as pessoas vão lá assistir ao que ela está fazendo”, conta Mônica.
Os amigos mais agoniados nem esperam os vídeos irem ao ar, vão logo perguntando à artista o que vai acontecer com os personagens da “trama” nos próximos episódios. Aliás, uma trama totalmente criada de improviso. Não há um roteiro, não há um texto decorado. Tudo sai espontaneamente da imaginação de Mônica, o que torna as esquetes ainda mais geniais.
Não é à toa que a fanpage tem 108 mil fãs; 76% são mulheres. Elas se identificam com as agrugas de Dona Maricotinha. Como naquele dia cansativo com as lidas do lar em que o marido ainda chega em casa à noite doido pra “fazer bobiça”. Ou então as pessoas se identificam com as temáticas atuais trabalhadas nos esquetes. O vídeo que viralizou e lançou Dona Maricotinha ao “estrelato virtual” foi uma paródia dos “50 Tons Mais Escuros”, que teve mais de 2 milhões de visualizações. “Foi uma coisa boba e pegou. É que é muito atual, estava atual. As pessoas se identificam. Igual ao Pokémon, quando a gente fez atravessando uma rua procurando, aí a gente estava na frente da Prefeitura e ela diz: ‘Isso aqui deve ter um monte de poquemonho’. Também viralizou esse vídeo”, diverte-se.
Aliás, divertir-se é algo que parece muito natural para a artista. Divertir-se e divertir os outros. Desde criança, sempre foi assim. “Sempre gostei disso, sempre fui muito palhaça. A gente fazia muito teatro aqui no Clube 7, ficava toda boba em cartaz. Lembro que eu era criança, nós morávamos no Aririú, e o ponto de ônibus era bem na frente. Então, quando o ônibus parava eu fazia palhaçada, e o pessoal do ônibus era a minha plateia”, revela, entre risos.
Mônica sempre militou na área cultural e chegou a fazer um curso com o diretor Wolf Maya, o que também deve ter contribuído para o aperfeiçoamento da personagem, mas o grande “laboratório”, mesmo, é a rua. Se for uma rua do Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, então, melhor ainda. É lá que “mora” Dona Maricotinha. É lá que ela se alimenta de histórias curiosas e novos bordões. É lá que busca a inspiração para cativar seu público, que se espalha por todas as idades, das crianças às senhorinhas que se “enxergam” na personagem. “A Maricotinha tem várias figurinhas que entram nela, no dia a dia, nos laboratórios que a gente faz, laboratórios de rua, né. A minha sogra, por exemplo, lá no Ribeirão da Ilha, é uma típica manezinha, benzedeira, nasceu e foi criada no Ribeirão, a família do meu marido é de lá, e eu aprendo muito com ela e com eles todos. Cada vez que eu vou lá é uma história diferente. Eles têm histórias hilárias, desde aquelas histórias de bruxas, histórias meio fictícias, até o dia a dia do manezinho”, destaca.
Os únicos cuidados neste mergulho nas raízes açorianas da Ilha da Magia são com o ritmo da narrativa e a peculiaridade dos vocábulos. “Se quiser imitar um mané, mesmo, a gente não ganha público, porque as pessoas não entendem”, comenta. “Faço muita coisa com o Darci (personagem cômico criado pelo músico Moriel Adriano da Costa). E outro dia a gente fez um evento que era o Brasil todo. O cara disse: ‘Pelo amor de Deus, vocês dão uma maneirada aí, senão ninguém vai entender’. Então, tem que pegar mais leve. O Darci mesmo dá umas disparadas, mais ainda do que a Maricotinha, então a gente se policia, para não entrar numas coisas que ninguém entende”, relata. Mônica conta que é comum ver alguém na plateia “traduzindo” as expressões típicas para os amigos.
Mas com tradução ou sem legenda, o fato é que Dona Maricotinha conquistou um público fiel, inclusive no Legislativo da Capital, a ponto de receber, aos 45 anos, uma honraria do porte da medalha Aldírio Simões. “Ganhar a medalha foi um sonho, nossa. Meu Deus, acho que todo manezinho quer. Medalha Aldírio Simões, Manezinho da Ilha, a cada ano era aquela expectativa, e quando me ligaram, eu disse: não acredito”. Pois acredite, senão mofas com a pomba na balaia!


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