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Santa Bola - Edição 568 - 15/12/16

15 Dezembro 2016 08:18:59

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Rituais de rebaixamento

Tanto para o Figueirense como para o Internacional, os rebaixamentos foram tragédias anunciadas. 
O principal sintoma foi a troca incessante de treinadores durante a competição. O Internacional mudou quatro vezes e o Figueirense cinco. 
É humanamente impossível uma mudança considerável do ponto de vista técnico e tático para melhoria acentuada de performance de recuperação.

Campeonatos estaduais
Ao contrário de muita gente, campeonato estadual, para mim, serve apenas de laboratório afim de ajustes para os campeonatos brasileiros, seja da Série “A” ou da Série “B”. Honestamente, meus amigos leitores, não vejo tanta valorização para o título.
No meu tempo de treinador, os títulos estaduais eram mais comemorados. Mesmo porque, a duração da competição era maior do que as competições nacionais.
Nos dias de hoje, mesmo com o título, mascara-se as fragilidades e deficiências. São poucas as exceções no país: a Chapecoense é uma delas. Foi campeã catarinense, reforçou para o Brasileiro e Sul-americana, cumpriu seu papel brilhantemente até o fatídico dia 29 de novembro.

Campeões sem convencer
Para se ter uma ideia  de quanto é ilusório o título de campeão estadual, eis alguns exemplos:
Goiás: campeão goiano mesmo fazendo contratações de peso, Walter e Leo Gamalho encabeçando a lista, nunca frequentou o G4 da Série “B” durante toda a competição.
Santa Cruz: começou bem, iludido com o título pernambucano. Caiu na real e voltou para a Série”B”.
Internacional: campeão gaúcho, também iludido e só fez trocar de técnico. Vai visitar a Série “B” pela primeira vez.
América/MG: campeão mineiro desbancando Cruzeiro e Atlético. Doce ilusão. Voltou para a Série “B”, não ganhando nenhum jogo como visitante.
Vasco: campeão carioca invicto e seria a maior barbada da Série “B” para o acesso. Só foi conseguida a vaga na última rodada, apoiado por mais de 50 mil vascaínos no Maracanã, contra o Ceará. Voltou para a Série “A” sob vaias de seus torcedores.
Vitória: campeão baiano. Só conseguiu a manutenção na Série “A” na última rodada. Frequentou a zona de rebaixamento várias vezes. 
Leiam e reflitam!


Via-Sacra

Jorge Mendonça, carioca do subúrbio, começou sua carreira vitoriosa no Bangu Atlético Clube. De lá foi para o Náutico, despertando o interesse do Palmeiras. Tornou-se um dos maiores artilheiros do Verdão em todos os tempos, marcando mais de 250 gols e alguns de marca histórica. Foi convocado para a Seleção comandada por Cláudio Coutinho para a Capa de 78, na Argentina. Ganhou a titularidade, colocando no banco o |Zico. Formava dupla com Roberto Dinamite ou Reinaldo. Ah! Falando em dupla, fez no Palmeiras uma inesquecível, ao lado de Toninho Quintino. Mas expliquei tudo isso para dizer que o Jorge enveredou-se por caminhos tortuosos, entremeando bebidas e noitadas. Perdeu tudo.
Há situações similares a essa envolvendo jogadores de futebol, que alcançam o apogeu técnico rapidamente e não dispõem de estabilidade emocional para administrá-lo. Na década de 70, aconteceu com Humberto Monteiro, lateral direito, negro, alto e forte, que também era técnico. Capixaba, chegou ao Atlético-MG para fazer parte daquele timaço que se sagrou o primeiro Campeão Brasileiro em 1971. O comando era de Telê Santana e o preparador físico Roberto Bastos, filho do lendário goleiro atleticano Cafunga. O time base era: Renato, Humberto Monteiro, Grapete, Wantuir e Oldair, Wanderlei Paiva e Humberto Ramos, Ronaldo, Lola, Dario e Tião. Faziam ainda parte do grupo: Mussula, Normandes, Beto Bom de Bola, Vaguinho, Spencer, Zé Maria Pena, Pedrinho e Romeu.
Quem destoava do ponto de vista comportamental, principalmente à noite, era o clássico Humberto Monteiro. Todos os dias, ligações eram feitas para a sede do Atlético, acusando o lateral de estar bêbado em algum ponto da cidade. Para se livrar das pressões do enérgico Telê, Humberto bolou uma estratégia: idealizou uma via-sacra pelos renomados bares de BH.

Bares da vida
Começou pelo bar do Baiano, em Santa Efigênia. Tomou todas e tirou o gosto do torresmo. Depois foi para o bar do Bolão, em Santa Tereza. Mesmo procedimento: atravessou a cidade para saborear o tradicional bolinho de bacalhau no bar do Júlio, no Prado. Ficou pouco tempo, sentindo que o reduto era de esmagadora preferência azul-celeste, comandado pelo pai e o filho: Júlio e Antônio José.
Aproveitou o desdém e rumou para o bar do meu amigo Miraldo, no Salgado Filho. Tomou mais algumas, não dispensando o delicioso angu à baiana. De lá partiu para o bairro Cachoeirinha, e parou no bar do Careca. Entre umas e outras, beliscou a melhor língua de boi do Brasil, prato que é carro-chefe do Careca, citado até na Revista Veja.
Finalmente, terminaria sua inquietude nessa pertinácia notívaga. Rumou para o seu destino preferido - o bar do Tinô, no bairro Eldorado. Estava sempre reservado para ele aquela porção generosa da especialidade da casa: a deleitosa dobradinha com feijão branco. Duro era saber quem bebia mais - Humberto ou Tinô! Briga boa!
Certa feita, Humberto ligou para o Tinô, às 5h da manhã, perguntando a que horas ele abriria o bar. Irritado com o horário, Tinô esculachou o amigo e bateu o telefone. Uma hora depois, novo telefonema. A pergunta? A mesma: a que horas Tinô abriria o bar. Outra onda de violência vocálica e Tinô ainda ouviu antes de bater de novo o telefone:
- É que você estava tão bêbado ontem quando fechou o bar, que me esqueceu aqui dentro!
No outro dia, depois da peregrinação alcoólica, as ligações vinham de todos os lados. O álibi usado por Humberto em sua defesa junto ao Telê foi:
- Como posso estar na mesma noite em todos esses lugares?
Por algum tempo abdicou da via-sacra, mas insistiu na via-crúcis, até encontrar a morte precocemente.

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