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Desacelerar é preciso

20 Abril 2017 14:27:45

Por: Antonio Gavazzoni*
O despertador toca de manhã e começa uma corrida. A cabeça não está mais no momento presente, mas na lista de afazeres que nos espera. As obrigações são tantas, que só o risco de não cumpri-las já nos deixa com sentimento de culpa. É preciso fazer o exercício matinal, se alimentar de forma saudável, dar atenção à família, não atrasar no trabalho, estar preparado para a infinidade de reuniões que não terão hora para acabar. E não basta fazer uma coisa de cada vez. É preciso estar conectado ao noticiário em tempo real, se comunicar com várias pessoas pelos aplicativos do celular, atender telefonemas. Não se pode perder tempo. Agradar, dar resultado, ser ocupado parecem ser os novos valores dos homens e mulheres bem sucedidos.
Besteira! Ser bem sucedido é conseguir controlar seu próprio tempo. Se despir de falsas culpas e abraçar prioridades verdadeiras. E não digo isso em tom de ensinamento – de jeito nenhum. Sou assumidamente um desses caras sem tempo, que não vive sem smartphone. Mas reconheço que a tecnologia nos trouxe tanta informação e tantas facilidades que acabamos nos tornando dependentes e servos de tudo isso.
E tem muito mais gente atenta a esse fenômeno, se podemos chamar assim. Um movimento contrário, de desaceleração, começa a ganhar força no mercado. Primeiro ouvimos falar em slow food, o contrário de fast food – parar para saborear, preparar o próprio alimento. Reparem a quantidade de programas de TV que nos ensinam a cozinhar. Mesmo com cada vez mais opções prontas, a audiência dos “fazedores de receitas” só aumenta.
Outro indício de que precisamos e queremos desacelerar: os “dumbphones” (telefones “burros”, contrário de smartphones). Aparelhos sem internet, que servem tão somente para fazer e receber ligações, estão reconquistando seu espaço no mercado. Eles nos dão a possibilidade de colocar ali o número do trabalho e simplesmente não usar para mais nada. Há previsões de crescimento de 5000% deste tipo de telefone no mercado este ano (Counterpoint Research). Já pensou? É um nível de desapego que, confesso, não sei se teria. Mas como seria bom se dar esse luxo!
Esses são apenas alguns indícios dessa vontade de “voltar no tempo”. O que não significa abrir mão da tecnologia e das facilidades da vida moderna, mas usá-las a nosso serviço, para que tenhamos mais tempo livre, e não cada vez menos.
O filósofo Mário Sergio Cortella, a quem aprecio muito, escreveu que “a vida é muito curta para ser pequena”. Disse ele que “é preciso tomar cuidado com duas coisas: a primeira é que tem muita gente que cuida demais do urgente e deixa de lado o importante. Cuida da carreira, do dinheiro, do patrimônio, mas deixa o importante de lado. Depois não dá tempo”.
Acredito que o leitor, assim como eu, concorda. Embora na prática sejamos todos aprendizes, ter consciência do que queremos já é um começo para a mudança. Talvez esse seja o propósito do envelhecimento: obrigar-nos a desacelerar, mesmo que muito aos poucos, e começar a olhar mais para a vida de verdade, a nos dedicar mais ao que nos faz bem, a dar mais tempo ao tempo. Sábio daquele que desperta antes. Enquanto isso, vamos vivendo e aprendendo.

* Secretário de Estado da Fazenda e doutor em Direito Público


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