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Mistérios Palhocenses - Edição 516 - 10/12/15

10 Dezembro 2015 15:08:28

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O homem que queria preservar a mata
Éramos crianças endiabradas, corríamos o dia todo e o lugar quase sempre usado para nossas estripulias era a propriedade do seu Neca Vicente, no Alto Aririú. Seu Neca, que não cheguei a conhecer, pois tinha somente quatro anos de idade quando ele faleceu, em 1960, era um próspero comerciante que fornecia mercadorias e ferramentas aos moradores do bairro de Palhoça e até para a região serrana.
Seu armazém, localizado próximo à atual capela do bairro Alto Aririú, era conhecido por todos, inclusive pelos viajantes que passavam por Palhoça, trazendo da região serrana as suas manadas de bovinos, ou de carroceiros que traziam suas mercadorias da Serra para vender na Capital de Santa Catarina. Esses carroceiros ambulantes também levavam de seu armazém mercadorias para vender na Serra catarinense.
Seu Neca era um homem de muitas posses. Possuía, entre outros bens, muitos alqueires de terra – grande parte deles, pastagens e mata virgem. Foi no pomar deixado por seu Neca que saboreei as mais gostosas goiabas, pitangas, caquis, laranjas, garrafinhas, cabeludas, ameixas, araçás da minha vida!
Os antigos moradores do Alto Aririú contam que seu Neca era considerado uma pessoa muito pão-dura e, como diziam, “não abria a mão nem pra nadar”, e não dava nem um pauzinho de sua mata, caso alguém lhe pedisse, por exemplo, um pau para fazer uma linha ou um caibro para uma casa ou um pontilhão.
Dizia seu Neca Vicente, explicado a negativa:
– A mata precisa ser preservada!
No dia de sua morte, no início dos anos 1960, enquanto acontecia seu velório, no velho casarão, os moradores da vila juram ter escutado, durante todo aquele dia, o barulho de vários machados cortando árvores na mata em suas terras. Curiosos foram constatar quem estava roubando madeira, mas por mais que tenham procurado em toda propriedade, não encontraram nenhuma árvore cortada.
Os antigos moradores que dizem ter ouvido o barulho dos machados, na ocasião, achavam que algo misterioso aconteceu no dia de sua morte. Houve quem dissesse que o estranho som era porque ele era pão-duro. Eu, particularmente, acredito que foi um prenúncio do próprio seu Neca, que, a partir de sua morte, sabia que toda a mata que preservara até então com muito afinco se extinguiria a partir de sua morte – e foi exatamente o que aconteceu.
Hoje, 55 anos depois de sua partida, não existe qualquer vestígio de que a propriedade já teve uma natureza preservada. Nenhuma árvore daquela época sobreviveu. Todas foram derrubadas a machado ou a motosserra para dar lugar a loteamentos. E onde existia seu lindo pomar, brotaram na propriedade vários prédios de ferro e cimento, e nem os velhos coqueiros à margem da avenida São Cristóvão sobreviveram para ajudar a contar essa história!

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