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Mistérios Palhocenses - Edição 515 - 03/12/15

03 Dezembro 2015 15:08:11

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O dançarino de pés redondos

Na graça de seus 16 anos de idade, Fernanda olha-se no espelho ajeitando os pequenos mamilos, imaginando que, com isso, ficassem maiores. Depois, passa a escova pelos cabelos negros, longos e cacheados, puxa uma mecha por sobre a testa, contrastando a cor dos cabelos com o castanho dourado de seus lindos olhos cor de mel. Sua calcinha preta é cuidadosamente sentada no corpo de menina quase mulher, sob a meia-calça também preta. Com delicadeza, veste uma saia curta e um bustiê de renda, ambos vermelhos. Olha-se novamente no espelho pressionando os lábios para que o batom mostrasse o belo contorno de sua boca sensual. Sorriu, admirando sua própria beleza, enquanto calçava as sandálias tipo Azaleia, que sua mãe comprara a prestação na Jaqueline Calçados.
Por último, coloca cuidadosamente o novo brinco que ganhou de um paquera no seu último aniversário e sai do quarto pensando:
– Hoje vou arrasar no Miami!
Na sala de estar, Fernanda cruza com seu pai, João de Melo, que assiste ao programa do Silvio Santos. Ao ver a filha vestida para sair, levanta-se do sofá, encara a filha de cima a baixo e, com cara de poucos amigos, pergunta:
– Aonde é que a mocinha pensa que vai vestida assim?
– Vou na danceteria Miami – respondeu a moça, num tom malcriado.
– Que Miami que nada! É quaresma, e filha minha não vai dançar na quaresma! Pelo menos, enquanto eu for vivo!
Dona Rute, mãe de Fernanda, sai nesse momento da cozinha, alertada pela voz alterada do marido, e enquanto enxuga as mãos no avental, fala, apaziguando os ânimos:
– Ô, João, eu já falei com a Fernanda, ela não vai entrar na danceteria, vai ficar fora só dando uma olhadinha. Deixa ela ir, deixa?
– Ah, vai! Ah, vai! Tu não conheces tua filha? É uma desmiolada! Pelo menos na quaresma ela podia parar com o rabo em casa – diz seu João para a esposa, e com ar autoritário, aponta o dedo em direção da filha, dizendo, ameaçador:
– Se eu souber que tu estás dançando na quaresma, te dou uma coça que tu nunca mais vais esquecer! Te lavo na água de sal!
E completa:
– Dançar na quaresma é coisa do diabo!
– Tá bom, pai, tá bom – interrompe Fernanda, que sai abanando a cabeça, contrariada pela bronca.
Rapidamente, ganha a rua. Da janela da frente da casa, dona Rute ainda diz para a filha:
– Fernanda, volta cedo e tenha juízo, filha!
A moça não responde, fingindo não ter ouvido o conselho da mãe e vai ao encontro de uma amiga, chamada Flávia, que esperava na boca da rua, e juntas se dirigem ao ponto de ônibus, que as levariam até a danceteria Miami, no Aririú.
Naquela tarde ensolarada de um domingo do mês de março de 1990, a Miami, também conhecida como “Danceteria da Bida”, não estava lotada como de costume, pois na quaresma, período de 40 dias entre o Carnaval e a Páscoa, era tradição em Palhoça os jovens não irem para as danceterias ou salões de bailes. Segundo esse antigo costume religioso, era um pecado mortal dançar na quaresma.
– Coisa do diabo – dizia o padre Osvaldo na missa de domingo, na Matriz.
Em Palhoça, a maioria dos jovens da época se divertia frequentando barzinhos naquele período. Entre tantos, o mais conhecido era o Snoopy Bar, no Alto Aririú, onde aconteciam, na quaresma, shows e um festival de música.
Fernanda não conseguiu manter a promessa feita aos pais e, puxando a amiga pela mão, entra na danceteria. Depois de dançarem algumas “dancing music”, as duas observam quando um jovem alto, de cabelos loiros e longos e extremamente bonito entra na pista de dança. Os olhos do estranho cruzam com os de Fernanda, que, excitada, não consegue parar de fitá-lo. A moça segura o braço da amiga e estremece ao perceber que o jovem loiro se dirigia ao seu encontro. Nesse momento, o sistema de iluminação da danceteria fez com que as luzes se acedessem e apagassem cadenciadamente. Fernanda percebe o brilho dos olhos azuis do jovem, que por segundos iluminou seu rosto, ficando ainda mais brilhantes quando sorriu mostrando os dentes alvos e muito bem feitos.
– Como é lindo! Parece um príncipe!
– É o cara mais lindo que já vi – exclama Flávia, concordando com a amiga, que parecia enfeitiçada pelo jovem loiro.
Como por mágica, o DJ coloca uma música romântica. Flávia e os demais jovens que dançavam no salão se dirigiram para os cantos deixando a pista livre. Só Fernanda e alguns casais de namorados permaneceram na pista. A jovem extasiada, como se estivesse hipnotizada pelo poder do olhar do loiro, sem perceber, o abraçou, começando a com ele dançar. Com o toque de seus braços em seu corpo, Fernanda estremece ao sentir o hálito quente do lindo desconhecido. Aquelas mãos fortes em volta de sua cintura, as mãos e braços da moça em volta do pescoço, lhe davam a estranha sensação de êxtase, poder e alegria. A moça afasta-se por um momento e ele, olhando-a sorridente, lhe beija ligeiramente os lábios.
Depois do inesperado beijo, Fernanda, timidamente, baixa a cabeça e entre os flashs de neon do chão da danceteria, percebe algo de estranho no “divino loiro”. Primeiramente, pensou estar vendo uma alucinação; confusa, reiniciou a dança. Ele a abraçava com força, tanto que, por diversas vezes, precisou afastá-lo para que não a sufocasse. Ao fim daquela música, Fernanda, ao perceber o olhar profundo do estranho “príncipe”, baixou seus olhos como se quisesse fugir daquele estranho magnetismo. Foi quando a luz do neon, em dado momento, iluminou em cheio o chão da danceteria e o que viu a fez gritar apavorada, sem conseguir se mexer, ao constatar que seu “príncipe encantado” tinha os pés redondos, como o de uma besta! E foi aí que, como se evaporasse entre a fumaça que saía da máquina de gelo seco, a besta de pés redondos desapareceu sem deixar qualquer vestígio!
Durante muito tempo, após esse dia, falou-se que o diabo fora visto na danceteria Miami e havia quem dissesse que o diabo, de vez em quando, dançava no Snoopy Bar.

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