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Lamentos*

26 Janeiro 2017 09:58:24

Onde estás, me pergunto e não respondes,

Em que caminho hoje tu te escondes,
Se não te posso encontrar?
Nas noites que me velam me angustia
O que vou perguntando em agonia,
Meu Deus! Quando vais voltar?

Pois não sabes quanto sofrer me custa
Em minha vida essa solidão adusta
Neste caminho sem luz.
Onde sem nada tenho por sudário 
Do deserto sem amor, o calvário,
De estandarte tendo a cruz...

E quando nas tardes meigas e ardentes 
Sinto a rubra prisão de correntes 
A envolver-me o coração.
As recordações das tardes ditosas,
Das horas de amor, suaves, voluptuosas,
Que eu sei jamais voltarão.

Por sobre o peito meu escuro véu desce 
Como águia que no morno céu aparece,
Cobrindo em dor meu viver
As recordações, somente pesares,
Um turbilhão de pássaros nos ares,
Uma fogueira a morrer.

Eu choro, e então para meu desencanto 
O silêncio embriaga-se no meu pranto,
O mais doloroso vinho!
E o soluço responde no infinito,
Como gaivota que ferida ao grito,
Tombando ao mar de mansinho...

Só me resta lembrar, pois 'te a desgraça,
Hoje por mim, solitária e cruel passa
O meu anátema de dor;
Aqui onde as flores morrem e os arcanos,
Desconhecem dos próprios desenganos,
No silêncio aterrador...

No deserto que minha vida vela,
Tem o vento o silvo de uma procela,
Um chicote a dardejar...
E eu tal qual nave desgarrada,
Sozinho sigo, buscando no nada,
Um porto para ancorar...

Cidão França

* Curiosidade: no CD “Estrela”, da banda palhocense Theatro dos Bonecos, a primeira estrofe de “Lamentos” é declamada antes da música "Estrela", composta em homenagem ao surfista Ricardo dos Santos, o Ricardinho, assassinado na Guarda do Embaú em 2015


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