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Falando Sério - Edição 588 - 11/05/17

11 Maio 2017 11:07:31

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Minha amiga, a máquina de escrever

Em 1970, quando assumi o cargo de promotor de Justiça, comprei uma máquina de datilografia Monarch, da Remington, para escrever minhas denúncias e tudo o que fosse necessário para incluir nos processos. Iniciei meus trabalhos na Comarca de São João Batista, onde minha máquina prestou relevantes serviços que vieram a fazer parte da história da Justiça local.
Fora do meu trabalho profissional, ela me ajudava a escrever, passando a limpo tudo o que me vinha à mente, não só no plano pessoal, particular, mas também o que dizia respeito à convivência na sociedade onde eu vivia. Ainda hoje ela me faz companhia, escrevendo as crônicas para o jornal Palavra Palhocense.
No momento, estou relendo “Sombras que Sofrem”, do escritor Humberto de Campos. De suas tristes histórias, escritas por sua também amiga máquina, escolhi a que segue.
Havia um casal, com uma filha menor que estava muito doente. Eles se separaram e a filha ficou com a mãe. O marido, ignorante e violento, entrou com processo para que a filha ficasse aos seus cuidados. O juiz decidiu em favor do pai. O oficial de Justiça dirigiu-se à residência da menina e, chegando lá, soube que a garota estava muito doente no hospital e tinha que fazer uma cirurgia. O oficial de Justiça voltou ao Fórum e comunicou ao juiz que a menina não fora entregue porque estava no hospital. O marido insistiu junto ao juiz que queria que a garota lhe fosse entregue de qualquer jeito. O juiz mandou que o oficial de Justiça fosse ao hospital buscar a menina. Lá chegando, foi informado que a garota havia retornado à casa. Foi até lá e entregou o documento à mãe da garota, que leu, assinou e disse para ele entrar e levar sua filha. Entrou, viu um caixão de defunto com uma vela acesa. A garota não sobrevivera à cirurgia. A mãe, chorando, disse apena: “Pode levá-la”.
 Todos nós sabemos que “a religião é o ponto de encanto dos desencantos humanos e a justiça é o ponto de encontro dos desencontros humanos”. 
Minha máquina de escrever está com 47 anos, trabalhando sem parar. Pelos serviços que me prestou e ainda presta, não vou trocá-la pelos modernos meios de comunicação. Um objeto pessoal também deve ser sempre lembrado. Isto também deveria ocorrer com os seres humanos. Um palhaço de circo que só recebeu aplausos enquanto era jovem, na velhice, ninguém o reconhece. Por isso, não esperem gratidão da sociedade por terem sido úteis. Quem se lembra dos engenheiros e dos operários que construíram aquele prédio enorme ou aquela ponte maravilhosa? Do professor que educou uma geração de alunos, ou de uma autoridade que deu lições de ética? 
Por tudo isso é que eu sou agradecido à minha velha máquina de escrever.

 

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