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Santa Cruz: mistério e fé na Guarda do Cubatão

28 Junho 2012 10:35:45

Moradores dão testemunhos curiosos sobre a origem da cruz fincada por descendentes açorianos às margens do Rio Cubatão

Texto: Maria Júlia Manzi
Símbolo religioso foi levado e fincado em diversos locais do bairro, antes de ganhar uma capela

Em sua estrutura de madeira, um conselho: “Salva a tua alma”. À beira do Rio Cubatão, em uma das mais belas vistas de Palhoça, repousa a Santa Cruz da Guarda do Cubatão. O marco fica em uma capela aberta, pajeada por flores e pelo olhar devoto e carinhoso dos moradores que por ali passam.

No bairro Guarda do Cubatão, a Santa Cruz é tão antiga e tão forte que, além de símbolo religioso, há muito passou a desempenhar uma função geográfica: “É um ponto de referência aqui na Guarda. Quando pedem um endereço daqui, a resposta é sempre antes, depois ou entra na Santa Cruz”, explica o morador Bernardo Varmeli, o Titi.

Junto à inscrição também consta na Cruz a data de 25 de agosto de 1945 - não se sabe, porém, do que se trata. Marcaria ela a chegada dos missionários capuchinhos ao local? Ou a data de dedicação da comunidade à Santa Cruz?

De uma coisa apenas Osvalda da Silva, de 73 anos, tem certeza: “Foi meu tio que, tempo depois da existência da Santa Cruz, gravou a inscrição. Ele morava em Coqueiros (Florianópolis) e veio pintar a casa de um morador daqui. Aí os missionários pediram que ele escrevesse esta frase”, conta. Dona Osvalda também se lembra de ter ouvido falar que no local onde hoje é a capela já funcionou um engenho de farinha.

Mas, muito antes de ser referência para união, a Cruz dividiu a comunidade. Todos a queriam próximo de si e, por este motivo, o símbolo religioso foi levado e fincado em diversos locais do bairro, antes que finalmente lhe fosse construída uma capela. 

Luci Alvina de Sousa, de 81 anos, era pequena, mas conhece a história de tanto que já a escutou de sua mãe, que hoje está com 97 anos e ainda gosta de repetir o episódio. “A minha avó tinha doado o terreno para a Cruz e um dia, à noite, as pessoas que moravam onde hoje está a Cruz e que a queriam muitíssimo lá, lhe roubaram e levaram para perto de suas casas. Meu pai era muito teimoso e não quis aceitar. Foi lá buscar a Cruz de volta. Deu até polícia e, se não fosse o Seu Brasiliano, que na época mandava em Palhoça, meu pai teria sido preso”, conta Dona Luci.

Ninguém sabe informar ao certo a data em que foi construída a capelinha para abrigar a Santa Cruz. No local onde ela originalmente ficava, no terreno doado pela avó de Dona Luci, hoje está a igreja, dedicada aos Santos Anjos.

Para manter a tradição, uma vez por ano faz-se festa e procissão na capelinha, durante a Semana Santa.

A professora da Faculdade Municipal de Palhoça e pesquisadora incansável da cultura açoriana no Município, Luzinete Carpin Niedzieluk, explica a paixão ardente dos descendentes de açorianos pelo símbolo da Paixão de Cristo: “Nota-se que, em toda cidade, várias capelas são dedicadas, não a santos, mas à Santa Cruz. Os açorianos a colocavam em destaque em todos os locais onde eles apostavam. Assim, quem visse a Cruz sabia que ali era um local de cultura luso-açoriana e que seria bem-vindo”, explica.

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