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Palhoça dá adeus ao ?Velhinho Estradeiro?

28 Junho 2012 09:10:31

Um dos moradores mais idosos do Município morreu na quinta-feira, deixando saudade e histórias curiosas. Acompanhe ao lado como repercutiu a morte deste palhocense

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Texto: Camila Alves e  Mariana Cardoso
Foto: Camila Alves

Palhoça perdeu na quinta-feira (21) uma figura folclórica. José Roque da Silva, também chamado de Zé da Praia, era um dos palhocenses mais velhos da Cidade. Familiares afirmam que ele teria 118 anos. Seu corpo foi velado na capela do bairro Bela Vista. 
Zé da Praia era um dos muitos apelidos de José Roque, um velhinho corcunda, de barba branca, com um saco de linhagem nas costas e um chapéu na cabeça. Alguns dos outros são: “Velhinho estradeiro” e “Fujão”, criados por causa de seu hábito de caminhar todos os dias pelas ruas da Cidade.
Em julho do ano passado, o jornal Palhocense esteve na casa de Seu José Roque. Lá, conferimos que a carteira de identidade registra que ele nasceu em 1933 e que teria, então, 78 anos. Mas os parentes afirmaram, na época, que ele é bem mais velho. “O Zé tinha um primo de 115 anos que morreu há dois anos e ele era mais velho que o primo”, disse o meio-irmão de Seu Roque, Osvaldino de Souza.
Ele contou que na época em que Seu Roque nasceu, ele não foi registrado imediatamente no cartório. “O documento foi feito mais de 40 anos depois”. 
A questão da idade de José Roque da Silva não era a única que gerava dúvidas. O apelido pelo qual era conhecido no Município, “Zé da Praia”, também teve origem desconhecida. “Foi uma senhora de Santo Amaro da Imperatriz que deu esse nome para ele, mas ninguém sabe o motivo”, revelou Souza. 
Mas uma coisa era certa: José Roque não gostava do apelido. Mesmo sem conseguir falar direito, por causa da idade, ao ser questionado pela reportagem sobre o apelido, ele começou a rir e a balançar a cabeça, mostrando que não gostava de ser chamado assim. 

Estradeiro:
Todos os dias - inclusive nos finais de semana - José Roque já estava de pé às 5h da manhã. Pegava o ônibus em frente à sua casa, no bairro Bela Vista, às 5h10. Quando se atrasava, saía por volta das 6h. O destino era incerto: podia ser o Centro de Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Imbituba ou qualquer outro lugar. As caminhadas duravam a manhã inteira. Ele só voltava para almoçar, às 12h. Às vezes, quando ia para um lugar mais longe, voltava só no fim da tarde.
Quando nossa reportagem esteve na casa de Seu José Roque era um dia de chuva e fazia frio. Mesmo assim, ele tinha acabado de voltar de sua caminhada diária e ainda estava com as roupas molhadas.
A esposa não gostava que ele saísse. Certa vez trancou o portão da casa com um cadeado. Mas o muro é baixo e seu José, andando na ponta dos pés para não acordá-la, subiu em uma cadeira, jogou a “mochila” para fora e pulou. 
“Uma vez era 2h da manhã e, quando vi, ele já estava acordado. Perguntei para onde ele ia e disse que ia pegar o ônibus. Era noite de lua cheia e tava mais claro que o normal”, relatou, rindo, sua enteada, Maria Aparecida de Souza. “Quando ele não sai de casa, fica doente. Fica nervoso e aborrecido com a gente”, afirmou Maria. 
Segundo seus familiares, o hábito de caminhar surgiu há cerca de 50 anos, quando Silva aposentou-se. Dentro da sacola de linhagem, ele levava um casaco, os documentos e sacolas plásticas. “Às vezes, as pessoas doavam coisas para ele. É por isso que ele levava as sacolas plásticas. Muitas vezes ele voltava com leite, pão, açúcar, café”, contou Maria.  

História:
Seu Roque não possuía filhos. Além de Maria, ele tinha outra enteada, Helena Rodrigues, e mais de 40 sobrinhos. As duas são filhas de sua esposa, com a qual era casado há cerca de 30 anos. “Para todo mundo nós não somos enteadas dele. Ele era nosso pai’, disse Helena. Para o irmão Souza, Seu Roque era o pai de todos. “Era quem comanda, ele é o mais velho”, completou.
Natural de Alfredo Wagner, Seu Roque mudou-se para Palhoça para acompanhar sua mãe. “Ela não tinha mais como trabalhar na roça”, contou o irmão. Durante sua vida, Seu Roque sempre trabalhou na lavoura. Não aprendeu a ler nem a escrever. Na Cidade, morou na Guarda do Cubatão, no Brejaru e no Bela Vista, onde viveu por mais de 20 anos.

Música:
Caminhar não era a única paixão de José Roque da Silva. Apreciador de Vanerão - um tipo de música gaúcha - ele sonhava em ter um acordeão (também chamado de gaita ou sanfona) para tocar suas canções preferidas, como “Abre a porta e a janela”.
Em casa, ele tinha um violão velho, com uma corda arrebentada, mas que não costumava tocar. Suas mãos ficaram com problemas porque Seu Roque já teve um princípio de derrame. “Ele disse que antes de morrer queria ter uma”, disse Maria.

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