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Os dois meninos, as velhinhas e o Divino

31 Maio 2012 13:51:39

A Bandeira caminha hoje, praticamente sozinha

Quem acordou cedo naquela manhã, ouviu, embora timidamente, o estouro feito por um foguete de vara e o baque triste de um tambor, fazendo seu tum, tum, tum... triste e solitário!

- O Divino vem aí!- Avisou meu filho de 10 anos, Davi.

- Que Divino? - Pergunto.

- O Divino Espírito Santo! - Diz ele.

E de fato era. Duas senhoras idosas e um menino caminhavam pelo acostamento da Avenida São Cristóvão, no Alto Aririú. Uma delas carregava a pombinha, que representava a Bandeira do Divino Espírito Santo. A outra levava nas mãos a salva, cestinha das ofertas. Um menino batia, de vez em quando, com um pedaço de cabo de vassoura em um tambor, fazendo: tum, tum, tum...

Um motorista que transitava no mesmo sentido do Divino abriu a buzina do seu caminhão, e, para assustar as velhinhas, passou velozmente rente ao acostamento, fazendo voar as fitas já gastas da pombinha, e levantando poeira causada pela buraqueira deixada pela prefeitura, depois que promoveu uma canalização e não voltou para arrumar o asfalto. Com a cabeça para fora do caminhão, gritou:

- Solta a franga...

- Não é franga, é uma pombinha, seu malcriado, - contestou uma das idosas.

Casa, após casa, elas entravam sozinhas e saiam sozinhas beirando o canto do acostamento.

- Ali morava o seu Frederico e dona Frida! Já faleceram! - lembrou uma das idosas apontando o dedo para um velho casarão fechado.

- Lá morava o seu Chico e dona Dica. - Completou a outra idosa.

- Era uma casa antiga... parece que ainda ouço o tic tac do velho relógio de badalo que mantinham dependurado na parede! - Diz a outra saudosa constatando:

- Todos já morreram!

Lembrando dos antigos moradores, a maioria falecidos, as idosas e o menino chegaram à próxima residência e forçando o enorme portão de ferro, entraram.

- Eles não estão em casa. Todos trabalham fora! - disse a vizinha da casa ao lado, avisando:

- Cuidado com o cachorro!

O aviso veio tarde. O cão pitbull que se encontrava na parte de trás da casa, atraído pelo rufar do tambor, correu atrás deles ameaçador. Foi só o tempo da pombinha sair no portão e o pitbull riscar violentamente o muro que, por ser alto, cortou sua intenção.

A casa seguinte era da mulher que avisara do cachorro, que veio abrir o portão de sua residência.

- Não precisa se incomodar... Tem cachorro?!

- Não.

- Preciso só de um pouco d´água para passar o susto!

Enquanto a dona da casa providenciava a água fresca e abria a porta da casa, a pombinha  ficou no quintal.

- Vou pedir umas mudinhas daquela rosa, disse a idosa que carregava a cestinha das ofertas.

A porta foi aberta e o grupo entrou. A dona da casa começou a reclamar da vida, pois, quem sabe, o Divino pudesse ajudar:

- O Nestor, meu marido, tá trabalhando na Proactiva, ganha pouco, sabe?! As crianças tão no jardim, lá na Creche da dona Laurita. Se não fosse ela deixar a gente matricular as crianças, nem sei o que seria da nossa vida! Mês passado não deu nem de pagar a luz! Daqui a pouco a Celesc aparece de novo pra cortar. Ando tão doente! É dor de cabeça todo santo dia! Médico? Não adianta mais procurar! Uma amiga minha quer me levar na Igreja Universal. Me disse que viu na televisão as pessoas que ficam curadas lá. Mas não sei não... Sou católica desde pequinininha, nasci católica e vou morrer católica com a ajuda do Espírito Santo...

Conversaram mais um pouco e a mulher quis saber se era verdade a história que contavam em Palhoça da tal maldição do Divino.

- Que maldição do Divino é essa? - Espantou-se uma das idosas, fingindo não saber.

- Eu também não estou sabendo de nada! - completou a outra.

Pensando estar ajudando, o menino do tambor explicou inocentemente:

- Escutei o meu pai dizer que a maldição do Divino cai contra os festeiros. A maioria faliu e ficou na pindaíba, depois que gastaram muito dinheiro para aparecer ou se lançarem candidatos à Prefeito da cidade... sendo festeiros do Divino!!

Uma das idosas interrompeu:

- Quem é que te falou uma barbaridade dessas, menino?! Se fosse assim o Prefeito Ronério estaria na maior pindaíba. Já foi festeiro do Espírito Santo da Matriz, e quatro vezes da festa da Enseada de Brito, e vai ser o próximo festeiro de Santo Amaro da Imperatriz.

Ao perceber o olhar de reprovação das idosas, o menino envermelhou, e baixando a cabeça, reiniciou o bater no tambor.

Despediram-se da dona da casa que foi levá-las até o portão. Ao ganhar a rua, uma das idosas lembrou-se e correu até o canteiro de rosas, arrancou uma muda e colocou na salva, dizendo:

- É pra não dizer que o Divino saiu daqui com as mãos abanando.

O cortejo ganhou novamente o acostamento enquanto a dona da casa, fechando o portão, ainda perguntou:

- Quando é a festa do Divino em Palhoça?

- É no próximo final de semana, pois é sempre uma semana depois da Festa do Divino de Santo Amaro!

- O Nestor não perde uma festa do Divino. Sabe como é que é, né? É chegado numas cervejinhas!

Quando passaram em frente à escultura do enorme dinossauro, esculpido pelo vice-prefeito Valmir Schwinden, na beira da estrada o menino parou de boca aberta e ficou olhando abismado. Uma das idosas ralhou:

- Anda guri, toca esse tambor!

A Bandeira do Divino continuou pelo acostamento. Depois de encontrarem algumas casas fechadas, chegaram à minha casa. A senhora que carregava a pombinha, perguntou:

- João, tu sabe soltar foguete de vara como sabia o teu pai, o seu Zequinha?

Com a explosão do foguete, o menino do tambor sorriu para meu filho Davi, e com os olhinhos brilhando, saíram em disparada atrás da varinha!

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