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Professor da FMP visita Guiné Bissau

20 Abril 2017 15:04:21

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A Faculdade Municipal de Palhoça (FMP) estreita cada vez mais seus laços com a Guiné Bissau, país africano com o qual a instituição mantém convênio desde 2015. Entre os dias 18 de dezembro e 1º de fevereiro, o professor Marcos Antonio de Souza, do curso superior de Tecnologia em Gestão de Turismo, visitou o país. Foi a segunda vez que o professor esteve no país desde o início do acordo de cooperação. E trouxe muitas histórias para contar, de uma realidade bem diferente daquela vivida pelos palhocenses.
Nesse período de cerca de 45 dias, Marcos trabalhou como professor voluntário, dando aulas tanto para curso técnico quanto para o Ensino Médio. A FMP mantém um convênio com a escola Bá Biague. Trata-se de uma escola particular, sem envolvimento com o governo. Os alunos que lá estudam pagam o equivalente a R$ 18 por mês; R$ 180 por ano, por um período de 10 meses.
Assim que terminam as aulas no seu país, o aluno interessado em estudar na faculdade palhocense faz uma redação na embaixada brasileira na Guiné Bissau. Depois, é verificado se a família tem condições de auxiliar no sustento do aluno no Brasil. No semestre passado, oito alunos guineenses vieram a Palhoça pelo intercâmbio, e outros 17 são esperados em 2017. “Essa parceria com o Brasil é importante. Pra FMP, é bom ter aluno estrangeiro estudando, e faz parte da questão da educação e da função social da faculdade”, reflete o professor.
Além do intercâmbio de estudantes, há outras formas como o Brasil pode ajudar no desenvolvimento da Guiné Bissau, um dos 15 países mais pobres do mundo. A própria FMP está arrecadando doações destinadas a implementar a infraestrutura da escola conveniada. A estrutura atual é precária – o quadro negro, por exemplo, é pintado na parede. Estão sendo reunidos materiais escolares como quadro, carteiras e livros. Mais de 5 mil livros foram doados à FMP, e depois de um processo de triagem, 3 mil obras foram selecionadas para integrar a nova biblioteca da escola guineense. O material está guardado em uma sala no Aririú e deve embarcar para o país em maio, em um contêiner. Até uma brinquedoteca para as crianças deve ser montada com o material doado.
Outra maneira de ajudar seria desenvolvendo a economia local. E o turismo é um dos aspectos que podem ser trabalhados, um setor em que a FMP tem know how suficiente para realizar um trabalho de excelência. Em março, o curso superior de Tecnologia em Gestão de Turismo recebeu a visita do Conselho Estadual de Educação, e recebeu nota 3,9 (de um máximo de 5). “Essa nota é fruto da reestruturação que o curso vem sofrendo. Durante a visita, foram entrevistados alunos, professores, coordenação e direção, demonstrando um discurso bem alinhado e que reflete na evolução do curso”, comenta a coordenadora do curso, Marinês Walkowski. “Entre os pontos mais bem avaliados, está a nova matriz do curso, a boa organização didático pedagógica, as ações e parcerias internacionais e nacionais, o entusiasmo dos alunos e professores”, acrescenta a coordenadora.
Durante a viagem, o professor Marcos se reuniu com os ministros do Turismo e da Economia da Guiné Bissau. E o turismo realmente tem tudo para alavancar a economia do país, que conta com um arquipélago imenso, com 90 ilhas. A Guiné está começando a receber o investimento de empreendedores europeus. Já existem pousadas de alto padrão, de frente pro mar, em ilhas isoladas, em que o acesso é possível via avião. Em 2018, a ideia é instalar uma faculdade de turismo por lá. “O ecoturismo ajuda muito, porque tem muita madeira lá, e os chineses estão tirando bastante madeira. O que pode amenizar essa extração indiscriminada de recursos naturais é o ecoturismo”, reflete o professor.

Experiência enriquecedora
Além de todo o trabalho para o desenvolvimento do convênio com a FMP, o professor relata que as visitas ao país africano são experiências enriquecedoras. A começar pelo idioma. Apesar de se falar português, não é assim tão fácil se comunicar. “Além de ser o português de Portugal, ainda é modificado, é totalmente diferente”, descreve.
As modificações ficam por conta da influência dos dialetos. Praticamente todo mundo fala uma variação local do criolo, e ainda há os dialetos específicos de cada etnia, como Fula, Mandinga, Beafada, Balanta, Mancanha, Manjaca, Bijagó, Pepel, Felupe, etc. “Em uma casa, eu ouvi 10 idiomas diferentes”, relembra.
Marcos conta que o país é ainda muito rural, onde imperam a agricultura e a pesca de subsistência. Também tem muitas reservas ecológicas e animais de grande porte, como elefante, chimpanzé, hiena e hipopótamo. “Comi muitas frutas, que são diferentes, são menores, não têm a quantidade de defensivos e insumos agrícolas que a gente usa. É tudo mais natureba, porque é uma agricultura de subsistência”, pondera. Como há frutas em abundância, ninguém passa fome no país, mas a expectativa de vida é bem baixa, não chega a 50 anos. Aí vem a questão de higiene”, argumenta.
As manifestações populares também impressionaram. Uma delas foi com relação a uma paixão que brasileiros e guineenses têm em comum: o futebol. Marcos esteve na Guiné durante o período da Copa Africana de Nações, em que o país participou da fase final, disputada no Gabão, pela primeira vez em sua história. “Conseguiram um empate com Gabão, nunca vi berrar tanto”, brinca.
Outra expressão cultural que o professor acompanhou foi uma Festa do Fanado, frequente tanto nas sociedades muçulmanas quanto nas animistas, e que consiste basicamente em um ritual de circuncisão de jovens, com muita dança e cantoria. Também acompanhou um casamento. Em uma das festas, chamou muito a atenção dos convidados, por ter a pele banca e os olhos claros. A população local, estimada em dois milhões de pessoas, não está muito acostumada a ver pessoas com esse perfil. Há muito pouco contato com a cultura exterior. Nem “pela televisão”. Até porque, na maioria das comunidades, não há nem energia elétrica. Mesmo na capital, Bissau, até anos atrás, metade da população não tinha luz. “Eles estão vivendo como há 300 anos atrás”, avalia. “Num casamento, teve duas situações curiosas: um menininho tentou pegar meu olho, duas vezes. E teve outro menino, que estava no colo de uma mãe ou de uma irmã, e eu fui botar a mão e o guri abriu um bocão; a mulher falou que ele tinha medo de branco”, narra.


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