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O pai de todos

10 Agosto 2017 15:49:32

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Foto: ARQUIVO PESSOAL
Seu Nilson (D), ao lado dos filhos Djohny (E) e Guilherme (C)

Seu Nilson fez carreira na PM. Os filhos seguiram seu exemplo. Mas não há um policial na companhia que não o considere como um “paizão”
Quando chega um policial no posto da Polícia Militar na Praia do Sonho, o cabo Nilson Alfredo de Souza Oliveira se levanta e cumprimenta com um beijo no rosto. Trata cada um com o mesmo carinho com que trata os dois filhos que seguiram a carreira do pai: Djohny Saul e Guilherme Raulino. Djohny está prestes a completar quatro anos na corporação; Guilherme foi aprovado no concurso de 2015 e neste ano foi chamado para integrar o programa de treinamento. Em 2018, os três estarão usando a mesma farda que seu Nilson honra desde 1982.
Eram outros tempos, conta. A começar pelo efetivo estadual, calculado em mais de 13 mil policiais. Passados 35 anos, o quadro encolheu para pouco mais de 10 mil. “No meu tempo, de policial novo, era muito difícil ouvir falar que vagabundo atirou em policial, era raro; hoje, não, hoje isso acontece com frequência, em qualquer confronto os caras estão atirando. E a vagabundagem está muito bem armada”, compara.
Nascido em Urubici, criado em Lages, chegou em Palhoça em 1979. Tinha 17 anos. Três anos depois entraria para a PM, sempre trabalhando no município. Seu Nilson é muito conhecido na Ponte do Imaruim, onde mora e onde trabalhou, no posto policial do bairro, até se aposentar, em 2008. “Pessoal me considera uma pessoa tranquila, que conversa bastante, então sempre tive um bom relacionamento com todos ali”, garante.
Mas como tem o ofício na veia, uma vocação inquestionável para ajudar a comunidade, seu Nilson não quis saber de ficar em casa. Mesmo na reserva, o cabo decidiu retornar à corporação. Está há cerca de seis anos trabalhando em tarefas administrativas. “Agora, como é um serviço mais interno, se tornou mais tranquilo. Bem mais tranquilo do que o trabalho do pessoal que está na rua. Pra quem está na rua, é bem complicado”, alerta.
Ele fala com conhecimento de causa. Inúmeras foram as vezes, durante a carreira, em que passou por situações de risco, atendendo a ocorrências com troca de tiros. Quando chegava em casa, relatava as peripécias aos filhos. Contava os fatos e enaltecia os valores que o motivavam a enfrentar o perigo. Os filhos o tinham como um herói. “Pra mim, ele é um exemplo. Desde pequeno, eu via ele sair pra trabalhar, era minha referência. Meus amigos de escola sempre falavam que achavam bonito de ver meu pai saindo pra trabalhar e o orgulho que eu tinha da profissão dele. E sempre tive, da mesma maneira meu irmão, que também vai seguir a carreira”, diz Djohny. Ele diz que sempre quis ser policial. Tanto que, quando criança, nos tradicionais desfiles de 7 de Setembro, fazia questão de ir “fardado”. O irmão pensa o mesmo. “Desde criança tive o sonho de ser policial militar, pois dentro de casa, tive o exemplo de um homem que sempre foi um grande profissional, com amor à profissão e zelo pelo próximo. Sempre disposto a dar o seu melhor, sem esperar nada em troca, por se tratar de uma carreira tão dura e muitas vezes injustiçada perante boa parte da sociedade. Meu pai sempre foi espelho para mim e meu irmão, um exemplo a ser seguido, o nosso verdadeiro herói. Que saía de casa sem a certeza de que no final do dia iria retornar, mas fazia sempre com alegria e com um largo sorriso no rosto”, recorda Guilherme.
A opção dos filhos em seguir seus passos enche o calejado coração do pai de orgulho. “Eu fiquei feliz demais, foi opção deles, era o sonho deles. Inclusive o mais novo (Guilherme) lutou muito, porque ele ficou esperando pra ser chamado nesta última turma, agora”, revela seu Nilson. “Fiquei muito orgulhoso mesmo e sempre dei total apoio. É um orgulho e uma honra. Eles sempre falaram que se espelharam em mim, de ver o pai fardado, trabalhando, fazendo coisas que eles achavam bonito, atendendo à comunidade. Pra eles, eu sempre fui um herói, e quando eles quiseram seguir a carreira, meu Deus... Não tem dinheiro que pague”, emociona-se.
O orgulho está estampado no sorriso que seu Nilson expressa quando fala dos filhos. Por outro lado, ele reconhece que fica apreensivo cada vez que o mais velho sai para trabalhar. “É um orgulho, é um sonho, mas a preocupação também é grande”, admite. Djohny sabe muito bem o que é isso: “Quando ele chegava em casa, ele contava as situações que aconteciam no serviço. Aí, quando ele saía pra trabalhar de novo, a gente já pensava justamente no que poderia acontecer, em alguma operação que ele iria fazer. Da mesma maneira que hoje ele fica comigo, eu ficava apreensivo também. E da mesma maneira que vai acontecer com o meu irmão: quando ele sair pra trabalhar e a gente estiver de folga, a gente vai ficar apreensivo, porque a gente sabe dos riscos da profissão. Mas mesmo assim a gente encara, está no sangue, não adianta”.
Djohny e seu Nilson trabalham juntos na companhia do Sul. Eles esperam que Guilherme também seja lotado na Praia do Sonho quando concluir o curso, em dezembro, e for chamado à ativa. Os colegas dizem que ele será “exigido ao extremo”, porque tem a responsabilidade de manter a excelência da família na profissão. “A gente vê pela educação dos filhos, é fora de série. O trabalho do Saul também é fora de série. Os valores dele, o cabo Nilson passou pros filhos, são pessoas que gostam de trabalhar”, elogia o soldado Renan de Souza.
Ele é um dos policiais da companhia que consideram seu Nilson como um pai. Um de muitos. “Eu sou da escola do primeiro filho dele que entrou na polícia, a gente é bastante amigo. Quando a gente veio pra cá trabalhar, a gente veio junto e eu tive o prazer de conhecer o cabo Nilson, que acabou, dentro da polícia, se tornando meu pai, que não está aqui (mora em Goiás)”, afirma o soldado João Paixão. “Ele é o pai de todos aqui. Ele é conselheiro quando precisa, puxa a orelha quando precisa. Muitas vezes, quando a gente está frustrado, não só com os assuntos internos da polícia, mas com algum problema em casa mesmo, é um paizão pra escutar, pra aconselhar. Quando é pra rir junto, ri junto. É uma pessoa extremamente agradável de trabalhar junto, está sempre de bom humor. É um cara que consegue levantar a bola da gente quando a gente vem pro serviço. Pode perguntar pra todo mundo na companhia: quando a gente olha na escala e vê que é o cabo Nilson que está trabalhando na base, a gente vem até mais motivado, porque é uma pessoa que transparece muita alegria, que passa muita alegria pra gente”, elogia Paixão.
O soldado relembra as duas grandes perdas que seu Nilson teve, e que o abalaram: a morte da esposa, em 2014, e quatro meses depois, a morte da mãe, ambas por câncer. Mesmo assim, manteve a postura positiva. “A gente tem que separar as coisas. O sofrimento não fez com que eu me tornasse uma pessoa amarga. Pelo contrário, fiz do pessoal aqui minha família. Eles me ajudaram muito a superar a perda que eu tive e a voltar a viver com alegria, porque foi bem difícil”, relembra seu Nilson.
O fato de ter voltado à ativa depois de mais de 25 anos doados à corporação, também inspira os colegas. “Para nós, é uma inspiração, porque tem policial com vinte e poucos anos já querendo se amoitar, se encostar, e ele é totalmente diferente. Vem pra cá e trabalha com alegria. Quando a gente vem pra cá e ele está trabalhando, a gente sabe que vai ser um dia bom, de risada, de brincadeira. Cabo Nilson é um policial diferenciado”, atesta Renan. E ainda por cima, faz o melhor café da companhia. É ou não é um paizão? O sentimento de respeito demonstrado pelos colegas mais jovens é retribuído com a mesma dose de carinho. “Se torna uma coisa tão íntima, tão boa, os conselhos, a alegria junto, o carinho que a gente tem. Meu cumprimento, de costume, é dar um beijo no rosto. Sempre foi feito isso em casa, e como eles mesmos disseram, que são meus filhos adotivos, o pai sempre dá esse comprimento pra começar bem o dia, mostrar que é família mesmo”, brinca seu Nilson, o “pai de todos” os policiais palhocenses. “Nós te amamos, meu pai. Obrigado por ser essa pessoa maravilhosa e que me dá ainda mais vontade de vencer e lutar, pois sei que no fim do dia poderei lhe abraçar e dizer o quanto eu amo o senhor”, finaliza Guilherme. Com tantas homenagens, seu Nilson vai passar um Dia dos Pais pra lá de especial neste domingo (13). 


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