palhocense.jpg

Muito mais do que 123 anos de história

20 Abril 2017 14:59:18

Scan0029.jpg

O país vivia um momento turbulento em 1894, ainda sob o efeito da Revolta da Armada, deflagrada em setembro de 1893. Santa Catarina estava sob estado de sítio e o coronel Antônio Moreira César foi nomeado governador provisório. Palhoça, na época, pertencia a São José, que apoiava a revolta; os palhocenses apoiavam o governo. Resultado: o coronel assinou o decreto 184 no dia 24 de abril, promovendo a emancipação política do território aliado. É o que comemoramos nesta segunda-feira. Mas a vida por aqui se estabeleceu muito antes, em diferentes organizações sociais e em diferentes momentos históricos.
A começar pelo próprio “homem do Sambaqui”, primeiro grupo humano a habitar o território catarinense, há mais de 2 mil anos. Depois, vieram os representantes do grupo indígena tupi-guarani, por volta do ano 1.000, segundo descreve o historiador Vilson Francisco de Farias em sua obra “Palhoça: Natureza, História e Cultura”.
Cerca de 500 anos mais tarde, chegaram os europeus. Portugueses e espanhóis, soberanos dos mares, lançaram suas caravelas, galeões e naus pelo Atlântico à procura de um novo mundo. “Descobriram” a América, “descobriram” o Brasil. Explorando o território ainda mais ao Sul, encontraram a Ilha de Santa Catarina. E na vizinhança continental, na enseada onde deságua o rio Maciambu, abrigada pela enorme ilha em frente, com “água ótima e fácil de ser encontrada” e um clima “particularmente favorável”, os navegadores estabeleceram um porto, que chamaram de Porto dos Patos.
Segundo o historiador Roberto Lourenço (no livro “1516 – 500 anos da chegada dos espanhóis a Santa Catarina”), por ali passaram oito expedições espanholas entre 1515 e 1550. Elas procuravam as riquezas do tal “Rio da Prata”, recém-descoberto no extremo sul. Os europeus encontraram no Maciambu os amistosos índios carijós – em 1526, estima-se que viviam na região cerca de 4 mil carijós. Devem ter achado que encontrariam aquela amistosidade toda também no Rio da Prata, mas a história conta outra história.
Em 1515, o experiente navegador Juan Diaz de Solis partiu da Espanha em uma missão de reconhecimento das terras da coroa espanhola na América estabelecidas pelo Tratado de Tordesilhas e também para explorar os tesouros do Rio da Prata. Um ano depois, Solis desembarcou em uma ilha no Uruguai, junto com outros sete tripulantes, e foi massacrado por índios locais – não há consenso entre historiadores se eram charruas ou guaranis. Apavorado, o restante da tripulação bateu em retirada, em três navios. Quando chegou ao litoral catarinense, a frota enfrentou uma tempestade e foi desmantelada.
Duas naus conseguiram seguir viagem, separadamente, em direção à Espanha; a terceira, com o leme avariado, tentou se abrigar próximo à Baía de Naufragados e literalmente naufragou. Onze dos 15 náufragos da caravela perdida conseguiram sobreviver. Entre eles, o lendário Aleixo Garcia, que “descobriria” o Império Inca, no Peru, atravessando o continente pelo mítico Caminho do Peabiru. Historiadores sustentam que ele e outros náufragos possam ter vivido em Palhoça, junto com os carijós, por vários anos; provavelmente na localidade conhecida como Araçatuba, aos pés do Morro dos Cavalos.
Mas se a vida dos náufragos entre a população indígena não é suficiente para atestar o início do povoamento de Palhoça, quem sabe, então, possamos considerar a passagem do bandeirante Domingos de Brito Peixoto, por volta do ano 1653? Ou então quando uma sesmaria foi passada ao capitão Antônio Bicudo Camacho, ao Sul do Maciambu, em 1698? Talvez o leitor prefira uma comprovação documental mais categórica. Ela aparece nos registros históricos em 1750, quando é registrada a freguesia da Enseada de Brito – sendo que ali já viviam 125 pessoas, antes mesmo da chegada dos colonizadores açorianos. Não é à toa que a praça Inácio Paulo Dalri e seu entorno foram considerados no ano passado como patrimônios históricos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Três anos mais tarde, José Luiz Marinho recebeu uma sesmaria com 1,4 mil braças de frente para o rio Cubatão, na Guarda do Cubatão. Mas é à palhoça de Caetano Silveira de Matos, na Ponte do Imaruim, que é atribuído o estabelecimento definitivo da sociedade na “sede distrital” palhocense. Caetano recebeu sua sesmaria em 1794. Havia estabelecido sua propriedade (um pequeno entreposto comercial) um ano antes, com a abertura do caminho para o Planalto Serrano. Naquela época, o território ainda fazia parte de São José. A partir daí, foi preciso o transcorrer de um século e uma revolta armada para que fosse sacramentada nossa emancipação política.

 

Imagens


logo palhocense.png

Copyright © 2011. Todos os direitos reservados | Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina