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Carandiru? Nunca mais

10 Agosto 2017 16:29:05

Isoyane Iris
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Foto: Norberto Machado
Eles dizem que hoje, o Marlene Pierri é um residencial tranquilo para se viver

Antigo apelido já não cabe mais ao Residencial Marlene Moreira Pierri. Não é mais “terra de ninguém”. É terra de gente de bem

“Carandiru, não. Por favor, aqui se chama Residencial Marlene Moreira Pierri”. É o apelo que os moradores precisam fazer com frequência, para tentar dissociar o nome como ficou conhecido o conjunto habitacional do Vila Nova, por conta dos diversos problemas que as famílias tiveram com insegurança, tráfico de drogas, furtos, roubos e até depredação do patrimônio. Tudo isso ficou no passado. Os moradores comemoram a mudança e apresentam com orgulho o resultado de um trabalho destemido realizado pela síndica Dulce Maria Werlich, com o apoio dos moradores.
O Residencial Marlene Moreira Pierri foi o primeiro a ser entregue em Palhoça pelo projeto Minha Casa, Minha Vida, e conta com 320 apartamentos. Moradora desde a entrega das chaves, há cerca de cinco anos, Danielle da Silva Costa conta que o início foi bem complicado. “Quando eu recebi minha chave, foi motivo de muita alegria, finalmente eu teria minha casa própria. Cheguei cheia de expectativas, mas com o passar dos dias, fui percebendo que não seria muito fácil, pois muitas famílias não eram acostumadas a viver em conjunto e com isso vários problemas começaram a surgir”, relembra.
Com alguns meses na nova residência, Danielle foi assaltada dentro do próprio apartamento, um fato que a fez ter muito medo de continuar morando ali. “Na época, meu filho tinha 10 anos, ele chegava da aula e me esperava sozinho dentro de casa. Depois que fui assaltada, confesso que fiquei com medo de como seria nossa vida aqui, pois a cada dia a situação só piorava”, conta.
Para a senhora Maria Beloni Camargo, a situação não era diferente. Moradora desde o início, ela conta que sentia medo de sair de casa e que tinha vergonha de trazer alguém no residencial, pois a situação estava fora de controle. “Eu tinha vergonha de dizer onde morava e de trazer visitas. Só o fato de entrar no portão e ver a quantidade de lixo que ficava espalhado pelo chão, dava vergonha, isso sem falar do mau cheiro”, lamenta a moradora, ao relembrar.
Para que o morador Tiago Menezes chegasse em casa, sua mãe tinha que esperá-lo todas as noites na entrada do residencial. “Eu trabalhava de manhã e estudava à noite. Minha mãe me esperava na portaria para eu entrar no apartamento, porque uma vez eu quase fui assaltado. Tinha medo de sair e de entrar em casa, todo dia era um problema”, acrescenta o morador.
Em junho de 2015, Dulce assumiu como síndica, com unanimidade de votos, e então a luta começou. “Eu sabia que teria muito trabalho e que não poderia fraquejar, pois moro aqui e queria ter um lugar descente para todos nós”, acreditava.
Junto com o cargo, começaram os problemas. Dulce foi ameaçada de morte várias vezes, registrou inúmeros boletins de ocorrência, enfrentou todos que estavam transformando o residencial em um problema e aos poucos foi conseguindo mostrar serviço. “Com a ajuda dos moradores, eu mudei a cara do nosso residencial. Comecei corrigindo o apelido que tinha sido dado, de Carandiru, e dizendo que nosso residencial tinha nome e que não era Carandiru. O respeito precisava começar em nós para depois vir dos outros, então começou a mudar”, recorda. 
O residencial era conhecido por ser problemático, então Dulce afirma que no começo tudo foi muito difícil. “Eu batia de frente com os moradores que incomodavam, não mostrava medo de jeito nenhum, até que eles começaram a ameaçar a minha família. Eu pensei em sair, principalmente depois de um dia em que mais de 20 moradores estavam embaixo da minha janela dizendo que eles iriam invadir meu apartamento e matar todo mundo. Nesse dia, eu fiquei com medo, chorei, me assustei com tudo que estava acontecendo e pensei em desistir, mas com o apoio do meu esposo e de muitos moradores, eu continuei”, relata.

Inadimplentes
Vários síndicos foram colocados à frente do residencial, mas segundo os próprios moradores, nenhum serviço conseguiria ser bem feito na época, por conta dos inúmeros casos de inadimplentes que não realizavam o pagamento da taxa de condomínio. “Ninguém estava acostumado a pagar condomínio, tínhamos cerca de 80% de inadimplentes quando eu assumi. Teve moradores que estavam há dois anos sem pagar condomínio. Fiz acordos, pois eu pensava que mais valia entrar pouco do que nada. Contas de água, luz e gás todas vencidas e sem possibilidades de acordo, pois os outros síndicos não tinham cumprido com os acordos antigos e agora as empresas não estavam abertas a negociação”, conta a síndica Dulce.
Ela procurou os inadimplentes propondo acordos que coubessem no bolso de cada família, até que conseguiu que todos regularizassem a situação. “Recebi até elogios do nosso gerente na Caixa Econômica Federal. Conforme o dinheiro dos acordos entrava, eu começava a colocar em dia nossas contas que estavam vencidas. Foi uma batalha, mas consegui e hoje estamos com tudo em dia”, comemora a síndica.

Marginalidade
Além das inúmeras dívidas, Dulce precisava resolver os problemas com relação à insegurança e ao tráfico de drogas, que era muito presente no residencial. A marginalidade tomava conta do local, de tal forma que para entrar na portaria os moradores tinham que pagar pedágio. “Em cada bloco existia um ponto de venda de drogas, isso sem contar os constantes furtos e assaltos que aconteciam dentro do residencial. Todos os dias era um apartamento arrombado. Um varal na rua não podia ficar jamais, pois até as roupas eram furtadas. De tudo acontecia aqui, era terra de ninguém. A situação só piorava, e como se não bastasse, eles estavam levando as nossas crianças para o crime. Se não tomasse uma providência, a situação perderia o controle”, acredita Dulce.
Teve um dia em que todas as mulheres se manifestaram pelos direitos dos moradores, contra a insegurança e o tráfico que estava sendo livre dentro do condomínio. “Nesse dia, eles viram que não estávamos para brincadeira, pois não iríamos mais aceitar entrar nos nossos blocos e nos deparar com pessoas fumando maconha e outras drogas”, relembra a moradora Danielle. “Eu comecei a pedir ajuda para todas as autoridades até que um investigador da DIC me deu todo o suporte necessário para que eu conseguisse afastar essas pessoas que estavam incomodando e perturbando nosso condomínio”, agradece a síndica. 
Ao andar pelo condomínio, a síndica conta que alguns moradores que incomodavam falavam que estava na hora de “fazer ela deitar” (uma expressão para dizer que estava na hora dela morrer). “Eu comecei a enfrentar, eu dizia que já que estava na hora que eles me deitassem de uma vez. Com o apoio da polícia, eu consegui começar a colocar respeito. Tratava eles de igual para igual, não abaixava a cabeça de jeito nenhum, tanto que dos 40 que nos incomodavam, cerca de 90% foram embora”, comemora a síndica.

Recomeço
Com quase dois anos de atuação, Dulce hoje colhe os frutos de um trabalho que exigiu muita dedicação. “No meu ponto de vista, com conversa, dedicação e honestidade a gente consegue muita coisa”, expressa. 
Hoje, o residencial conta com câmeras de segurança, e todo o condomínio é monitorado. O próximo passo é colocar câmera também dentro de cada bloco. “Hoje temos segurança na portaria, temos câmera de vigilância, tudo é muito tranquilo, me sinto em paz. O trabalho da nossa síndica e do conselho é fantástico. Ela foi muito corajosa de enfrentar tudo, vestiu a camisa e defendeu nosso residencial com unhas e dentes e hoje podemos colher os frutos de todo esse trabalho”, elogia Danielle.
Para Tiago Menezes, muitas mudanças ocorreram, e todas para melhor. “Antes eu não conhecia ninguém, era do meu apartamento para fora e deu. Hoje conheço vários moradores, nos damos muito bem e podemos viver em paz e tranquilidade”, conta o morador, que também ajuda a síndica na administração do condomínio. “Hoje eu tenho orgulho de dizer onde eu moro, trago qualquer pessoa no meu apartamento com muito orgulho. Aqui está lindo e se não fosse a Dulce, eu já estaria longe, com certeza, porque não estava mais sendo possível morar aqui. Hoje tudo está lindo”, agradece a moradora Maria Beloni Camargo.
Parquinhos novos para as crianças foram instalados recentemente. Para as mães que trabalham e os filhos ficam sozinhos em casa, existem um trabalho monitorado no salão de festas com atividades educacionais, filmes e brincadeira durante o horário em que não estão na escola. “Todos os dias temos uma professora, um ajudante, para que os pais possam ficar tranquilos. Sem dúvida é um serviço que em muitos residenciais de luxo não tem e que nós hoje podemos oferecer aos nossos moradores”, descreve a síndica.

Segredo do sucesso
Ao ser questionada sobre como foi possível mudar tanto a situação do residencial Marlene Moreira Pierri, Dulce afirma que tudo foi resultado de muita dedicação e honestidade. “Queria que isso aqui se tornasse um lugar tranquilo para os moradores. Não escondo nada dos condôminos e hoje vejo que isso é fundamental para desenvolver um bom trabalho. Hoje, o condomínio conta com um sistema de multas para regras que são infringidas, com valores bem altos. vejo que isso ajudou muito em relação ao cumprimento das regras. Quando alguém descumpre, vem rapidinho me procurar para explicar o que houve, pois sabe que a multa é pesada e eu não tenho pena de aplicar”, conta a síndica.
Sempre muito elogiada pelos moradores, Dulce recebeu uma mensagem que a emocionou. “Um morador me enviou dizendo que eu tinha conseguido algo inédito aqui dentro. Consegui fazer com que ele e sua família entrassem e saíssem de cabeças erguidas de dentro do residencial, coisa que antes ele tinha que entrar e sair de cabeça baixa para os bandidos”, comenta a síndica, emocionada por ver resultados como esse.

Brinquedoteca
Hoje, o condomínio está utilizando apenas um salão de festas, pois o outro foi completamente depredado e está fechado. Existe um projeto de fazer do lugar uma brinquedoteca, para que as crianças possam utilizar, mas no momento o condomínio ainda não tem verba e está contando com algumas parcerias e doações. Para quem deseja colaborar, é possível fazer contato pelo telefone 3093-7876 (no período da manhã, com Dulce). 

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