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Ação ousada de PMs impede desastre

10 Agosto 2017 15:30:54

Sem conseguir contato com os Bombeiros ou a PMA, policiais militares debelam fogo na Praia do Sonho

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Quase no final da ação, casal que estava na praia ajudou na contenção do fogo

A irresponsabilidade de quem não honra a natureza que o cerca quase provocou um desastre de grandes proporções na Praia do Sonho, na terça-feira (1). Por sorte, a coragem de quem honra a farda que usa salvou o ecossistema de restinga de uma devastação ainda maior. Mas o fogo que consumiu um trecho de cerca de 450 metros entre a avenida Nova Aurora e as dunas foi suficiente para prejudicar animais e danificar a vegetação, além de escancarar a falta de consciência com a questão do lixo.
Isso porque, a princípio, um dos focos (talvez o que tenha originado todo o incêndio) foi causado por queima descontrolada de lixo. E também porque, com a vegetação queimada, foi possível observar o descaso da população com o meio ambiente: muitos detritos que o mato escondia foram revelados, como embalagens plásticas, placas de madeira e incontáveis garrafas de bebida alcoólica. “Não podemos afirmar, porque não temos esse conhecimento e teria que ser periciado, mas no primeiro foco a gente encontrou um montinho de entulho de residência, folhas de madeira, e acreditamos que pelo menos lá a causa tenha sido o pessoal colocando fogo no lixo”, afirma o soldado João Paixão.
O policial militar e o colega, o também soldado Renan de Souza, receberam informações sobre um possível incêndio na vegetação da praia e se deslocaram até o local. Como não conseguiram solicitar apoio dos órgãos competentes para o devido atendimento da ocorrência (os sinais de rádio e telefone celular não são estáveis naquela região), em um ato de heroísmo, a dupla resolveu debelar o fogo sozinha. Eles avistaram o primeiro foco, e só depois perceberam que havia mais fogo na vegetação adiante. “A gente acredita que foram dois focos, porque quando a gente chegou, lá estava maior, mas aqui estava bem lá na frente na entradinha, foi mais próximo da praia”, aponta Paixão, mostrando um acesso ao mar por entre a restinga e as dunas, local onde o fogo chegou mais perto do mar. “Como o mato estava muito seco, o fogo foi se alastrando e foi pegando. Se o cara não apaga, ia tomar tudo, e essa área é área de restinga, é a primeira barreira física entre o mar e as casas”, explica Renan, que está na 9ª fase do curso de Biologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Então, a gente não ia deixar queimar uma área dessas aí, porque poderia se alastrar e pegar nas casas, e também pelos animais. Tem vários animais endêmicos dessa região”, ensina o policial militar.
Animais como as corujas buraqueiras, que fazem ninho na região, foram avistados fugindo do fogo. Escorpiões e aranhas também buscaram refúgio. Cobras em fuga foram presas fáceis para gaviões que rondaram a área em busca de comida. Os policiais, inclusive, poderiam ter sido feridos pelos animais amedrontados, mas nem pensaram nisso quando se depararam com a situação. A única coisa que lhes passava pela cabeça era fazer o que estivesse ao alcance para impedir que o fogo se alastrasse ainda mais.
A primeira reação foi avisar a Polícia Militar Ambiental e o Corpo de Bombeiros, que têm a expertise para lidar com esse tipo de situação. Como a comunicação estava complicada, eles trataram de agir por conta própria. Agiram por instinto e com o conhecimento pessoal; eles não foram treinados para isso. “Eu tenho uma faca que eu carrego sempre comigo dentro da mochila, e a gente começou a cortar galho com bastante folha e começamos a abafar o fogo”, relata Renan. “Também não tinha muito o que fazer, não tem acesso à água. Teria o mar, mas até pegar um balde e ir até o mar e voltar, demoraria bastante, e o vento estava levando muito as chamas”, emenda Paixão.
Entre o momento em que foram acionados até que conseguissem voltar para a sede da companhia, na própria Praia do Sonho, quatro horas se passaram. E eles só retornaram para registrar o boletim de ocorrência depois de darem uma volta pela área e se certificarem de que não havia mais perigo em lugar algum. “Ficamos várias horas no desespero, batendo no fogo, tentando apagar”, narra Paixão, que formou-se na Polícia Militar em 2014 e desde 2015 presta serviço na companhia do Sul; Renan está prestes a completar nove meses de serviço de rua.
A decisão de agir por conta própria cobrou seu preço. Os dois foram parar na unidade de pronto atendimento (UPA) do Sul, por causa da inalação de fumaça. “Acabou a ocorrência, passou umas duas horas e começamos a sentir tontura e dor de cabeça. Fomos fazer o exame e a médica disse que foi intoxicação por causa da fumaça”, descreve Renan. “Ficamos umas duas horas em procedimento com oxigênio, soro para reidratar e recebendo medicamento”, acrescenta Paixão. Eles também fizeram radiografia pra que os médicos pudessem se certificar de que a fumaça não havia causado nenhuma lesão interna – o ar quente pode queimar as vias aéreas. Além disso, com o mato cheio de lixo, especialmente plástico, aumenta o perigo de intoxicação com produtos químicos. João Paixão também sentiu uma ardência no rosto, queimado por causa da proximidade com as chamas, e durante o atendimento na UPA recebeu um emplastro de gaze com soro para reidratar a pele machucada.
O soldado Paixão é natural de Goiás, e não entende como as pessoas podem ser tão negligentes com o meio ambiente. Também não entende a reação de alguns colegas, que reprovaram a atitude dos dois policiais. Mas eles sabem que jamais poderiam ficar de braços cruzados diante de uma situação que colocasse em perigo a sociedade. Uma postura que vai além das determinações da profissão, e que honra não só a farda, mas também a nossa noção de cidadania. Obrigado pelo exemplo!


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